A tradição viva da literatura do cordel

30/03/2012

Por Vermelho

É lançada, em São Paulo, a Antologia do Cordel Brasileiro, organizada por Marco Haurélio, com autores de todas as gerações de cordelistas.

Por José Carlos Ruy (*)

A literatura de cordel, herança ibérica que vem da Idade Média e mantida viva na cultura popular do Nordeste, vai bem, obrigado!

Há quem pense que o cordel á uma forma de arte confinada ao sertão do Nordeste e hoje superada, perdida em décadas passadas, não sabem do que falam e precisam se atualizar. O cordel está vivo, tem inúmeros escritores populares que se exprimem nesta forma que faz parte do imaginário popular brasileiro, e são representados pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel, fundada em 1988 e sediada no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.

Para quem não conhece, e também para quem conhece e quer reciclar, a Global Editora acaba de lançar o livro Antologia do Cordel Brasileiro, organizado pelo poeta popular baiano, professor, folclorista e editor Marco Haurélio, cujo nome se destaca na literatura de cordel contemporânea.

A Antologia do Cordel Brasileiro é apresentada como um passeio pelo que de melhor foi – e é – feito por grandes cordelistas brasileiros é o que se oferece neste livro. Seu “prefácio” é um clássico – “O Soldado Jogador” – de Leandro Gomes de Barros (1865-1918), considerado por muitos como pioneiro do cordel e uma espécie de “Machado de Assis” do gênero. E cujos primeiros versos dizem:

O Soldado Jogador

Era um soldado francês

Que se chamava Ricarte

Jogador de profissão

E nunca foi numa parte

Que não trouxesse no bolso

O resultado da arte.

Os franceses nesse tempo

Tinham por obrigação

O militar ou civil

Seguir religião

O Papa deitava a lei

Botava em circulação.

Ricarte, soldado velho

Com trinta anos de tarimba

Aonde ele achava jogo

De lasquinê ou marimba

Dizia logo: – Eu vou ver

Água na minha cacimba!

Um dia faltou-lhe o soldo

Pôs-se Ricarte a pensar

Onde podia haver jogo

Que ele pudesse jogar

Era Domingo e a missa

Não havia de tardar.

Dinheiro não tinha um “xis”

A crédito ele nem falava,

Pois o soldado francês

Na taberna onde comprava

Só pegava no objeto

Porém depois que pagava.

Trocou entrada da missa

Veio o sargento chamá-lo

Ricarte ainda pediu

Para ele dispensá-lo

Porém o sargento disse:

- Sou obrigado a mandá-lo!

Ricarte foi para a missa

Com grande constrangimento,

Era obrigado a cumprir

A lei do seu regimento

Mas não podia afastar

O jogo do pensamento.

E por aí vai! Os textos da antologia são apresentados de maneira a deixar claro como a literatura de cordel no Brasil está apurada, desenvolvida… e viva! Eles são assinados por cordelistas de diferentes gerações, dos antigos aos contemporâneos, ilustrados com xilogravuras de Erivaldo, um nome representativo dessa arte, autor de mais de uma centena de ilustrações em livros e folhetos de cordel.

Lá estão obras de José Pacheco, Manoel D’Almeida Filho, Antônio Teodoro dos Santos, Francisco Sales Arêda e Manoel Pereira Sobrinho e autores da atual geração, como Pedro Monteiro, Rouxinol do Rinaré, Arievaldo Viana, Evaristo Geraldo da Silva e Klévisson Viana, entre outros.

Como diz Marco Haurélio, esta é a primeira coletânea que apresenta autores de todas as gerações. “Os poetas contemporâneos”, diz ele, “em especial, quase sempre são deixados de lado pelos estudiosos, que se embaraçam na busca pelas origens do cordel, ou se perdem no labirinto de obviedades dos que confundem este gênero com a poesia matuta ou com o canto improvisado dos repentistas”.

Antologia do Cordel Brasileiro.

Marco Haurélio (organizador),

São Paulo, Global Editora

(*) Com informações da Global Editora

 

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