Benevides é o berço da liberdade negra no Pará

30/03/2008

Município festeja hoje 124 anos de libertação dos escravos

Marly Quadros

Especial para O LIBERAL

O município de Benevides comemora hoje 124 anos da libertação dos escravos. Desde a última sexta-feira, uma programação intensa relembra que a cidade – à época ainda apenas uma colônia – foi a pioneira no Pará e a segunda no Brasil a acabar com a exploração desse tipo de mão-de-obra, antes mesmo da Lei Áurea, promulgada somente em 13 de maio de 1888. Com quatro anos de antecipação, Benevides ficou atrás apenas do município de Crateús, no Ceará.

Apesar do interesse da prefeitura em resgatar o legado deixado por descendentes de negros, muito se perdeu com o passar do tempo. Como referência daquele período, hoje resta apenas um casarão antigo na cidade, onde funcionou o engenho de açúcar ‘Santa Sophia’. Outros locais históricos foram descaracterizados com o tempo, como a antiga estação da estrada de ferro Belém-Benevides. No distrito de Benfica, é possível se encontrar também o cartório onde foi publicado o ato de libertação dos escravos.

O servidor público João Batista de Oliveira Filho é descendente de uma das remanescentes desse momento histórico. Filho de dona Brasilina, hoje aos 86 anos, ele conta que a mãe é a única da família que ainda conheceu um pouco das histórias dos escravos, repassadas pela avó, a quem todos conhecem como ‘Mãe Preta’, parteira e rezadeira que foi uma das últimas a viver na condição de escrava na região. Dona de uma sabedoria única, ‘Mãe Preta’ morreu quando ele tinha 12 anos de idade.

Dona Brasilina, embora com algum problema de saúde, ainda hoje conta as histórias deixadas pela avó de João Batista, que reconhece a importância de se trazer de volta à memória essa tradição. ‘Minha avó contava que havia vivido a escravatura. Acho uma coisa louvável essa iniciativa da prefeitura, porque os estudantes não têm aprofundamento na história de seu lugar. E afinal, povo sem memória não existe. Para haver futuro, tem que haver o passado’, afirma.

FESTEJOS

As comemorações pelo dia 30 de março começaram na sexta-feira passada, com direito a hasteamento de bandeira, alvorada e caminhada. O salão paroquial da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo também recebeu uma extensa programação cultural, com apresentações de capoeiristas, danças afros e de trabalhos produzidos pelos estudantes, entre outras atrações.

O prefeito Edimauro de Faria afirma que a Festividade em torno da data histórica ajuda a criar a identidade dos moradores que hoje vivem na cidade, que, assim como todas ao longo da Região Metropolitana de Belém, tem recebido um grande fluxo migratório nos últimos anos. ‘Temos necessidade de conhecer o nosso passado e a gente aposta nas crianças para valorizar o que temos. Benevides é uma área de atração populacional, por isso o interesse é investir na cultura como forma de desenvolver o aspecto histórico da cidade’, afirma.

A secretária de Cultura, Lucicléa Ferreira, diz que a libertação dos escravos sempre era lembrada na cidade, mas de forma tímida. Somente nos últimos três anos é que a data ganhou uma programação maior e até uma cartilha contando a história, direcionada para os estudantes. ‘Trabalhamos muito dentro da escola porque ela é portadora dessa informação. Estimulamos a leitura e a escrita com a criação do prêmio 124 anos de herança cultural, para estimular os estudantes a fazerem redação e cartazes. Os melhores ganharam livros, jogos, aparelhos eletrônicos, pen drive, entre outros prêmios’, conta.

Negros movimentaram economia da cana

O município de Benevides surgiu como núcleo colonial em 1875, a partir da reunião de vários lotes de terras distribuídas pelo governo para habitar a região, principalmente a colonos europeus. Virou município somente em 1961 e recebeu o nome do fundador da colônia, o então governador da Província do Pará, Francisco Maria de Sá e Benevides. Os negros escravos vieram para movimentar a economia em torno da cana de açúcar e foram libertados graças a um movimento denominado ‘Sociedade Libertadora de Benevides’, criada em 1881.

A terra isolada no meio da floresta amazônica acabou, sem saber, antecipando uma tendência que ganharia força a partir da pressão dos países europeus, principalmente da Inglaterra, e por sucessivas revoltas de negros em outras regiões, com a multiplicação dos Quilombos pelo país. O movimento foi engrossado, também, pela chegada de 180 imigrantes estrangeiros e por nordestinos que fugiam da seca, em 1877. Os registros sobre a história do movimento abolicionista em Benevides afirmam que foram esses cearenses que disseminaram o ideal de liberdade na colônia.

A cartilha distribuída aos estudantes relata que a abolição aconteceu num domingo, às 9 da manhã e que foi oficializada pelo presidente da Província, o general Rufino Galvão. ‘As casas estavam enfeitadas com ramos e árvores dos principais produtos da colônia. Nesta cerimônia foram assinadas seis cartas de alforria’, descreve.

Além de mobilizar as escolas públicas em torno do assunto, e, apostando nesse aspecto até certo ponto revolucionário dos primeiros habitantes do município, visto que a escravidão ainda era um bom negócio para muita gente na época, a Prefeitura incentiva a coleta de fragmentos e artefatos ligados à presença e ao trabalho dos escravos que viveram na região, como cadeados, cachimbos, restos de cerâmica e outros objetos, além de documentos.

Hoje não há nenhum Quilombo localizado dentro da área do município, porque este foi desmembrado ao longo dos anos, dando origem a outras cidades, mas um grupo ainda desenvolve um trabalho de pesquisa em busca de documentos históricos, artefatos, como cachimbos, restos de cerâmica produzida por escravos, fotos e outros objetos. (M. Q.)

Comunidade é que motivou a libertação

Conhecido como Zezinho Cubata, por conta da sua militância em torno das questões relacionadas com o tema, o arte-educador José Orivaldo Silva gosta de dizer que Benevides é o berço da liberdade do povo negro na Amazônia, porque aconteceu não por interesse do governo nacional da época, mas por uma imposição da própria comunidade. ‘Alguns pesquisadores como Vicente Sales já encontraram documentos que citam a vila de Benfica (distrito de Benevides) como uma das mais antigas do Estado, até mesmo mais que Vigia’, conta.

A história em torno da sociedade abolicionista e do movimento que culminou com a assinatura da abolição no município, no entanto, ainda está longe de ter sido completamente desvendada. Zezinho diz que o processo não foi tão tranqüilo como a princípio pode parecer. Ela afirma que no início a idéia teve resistência do governo estadual e que um emissário do governador chegou a ser preso, chicoteado e teve as unhas arrancadas. ‘Ele foi devolvido na costa de um burro com uma placa no pescoço onde estava escrito ‘saiba que aqui é a terra da liberdade’’, conta. Essas histórias ele coletou durante o trabalho que faz com o apoio da cartorária Ana Maria Paiva e de um representante do movimento Quilombola, José Silva.

O descendente direto dos franceses donos do engenho Santa Sophia, Ronaldo Rossi, que mantém até hoje o casarão onde funcionou a produção, diz que antepassados foram os primeiros a chegar à região, quando Benevides ainda era chamada colônia Nossa Senhora do Carmo. Ainda é possível ver na porta da casa o ano de fundação, 1899. ‘Acho que os franceses têm muita contribuição na abolição, porque já eram contra a escravidão. Mas o grande precursor disso foi um alemão, Emil Dax, que casou com uma escrava’, relata.

Ele diz que não acredita que o processo tenha sido muito difícil, porque não havia tantos escravos na região na época e por conta da postura política da maioria dos donos de engenhos e fábricas de cerâmica, onde os escravos eram empregados. ‘Foi uma festa cívica e o governo se promoveu com isso na época. O objetivo não era libertar os escravos. Ele (o governador) veio inaugurar um trecho da estrada de ferro e acabou sendo levado pelo movimento popular. As histórias vão sendo contadas e acabam distorcidas’, garante. (M. Q.)

Benevides organiza programação especial para lembrar a libertação de seus escravos ocorrida em 1884

A cidade de Benevides, na Região Metropolitana de Belém, completa hoje 128 anos de libertação de seus escravos. Em comemoração a data, durante a manhã de hoje, será oferecida aos moradores uma programação especial, com caminhada pela cidade, apresentação de teatro e dança, desfiles e exposições. O evento reúne também estudantes da rede pública municipal e estadual e ensino. A promoção é da prefeitura de Benevides, por meio das Secretarias Municipais de Cultura, Lazer e Turismo (Secult) e Educação e Desporto (Semed). O prefeito de Benevides, Edmauro Ramos de Farias, destacou a importância da data para cidadania. “O nosso objetivo é levar à sociedade a importância desta data e começamos pelas escolas. Acredito que existe em cada benevidense um sentimento de democracia, quando se fala em libertação de escravos. Temos orgulho das conquistas realizadas pelo município até hoje”, afirma.

A programação da festa envolveu as escolas da cidade e na praça da matriz com apresentação de teatro, dança, música, poesias, contos, pinturas e espetáculos feitos pelos próprios alunos sob o tema “30 de março por toda a parte”. O professor Olivando Miranda, disse que promover a cultura do município é uma maneira de valorizar e perpetuar a sua história. Para Olivando, a data é um marco comemorativo que deve ser relembrado com festa, afinal, Benevides, que inicialmente era conhecida como a pequena colônia de Nossa Senhora do Carmo, foi a segunda localidade da região brasileira a aderir a abolição de seus escravos, no dia 30 de março de 1884. “É importante que a história do município seja relembrada desta maneira. Levar a nossa história para dentro das escolas é uma maneira de perpetuar este conhecimento através das novas gerações. Desde pequenos eles aprendem a conhecer e a valorizar a história do local aonde nasceram”, ressalta.

 

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2 respostas a Benevides é o berço da liberdade negra no Pará

  1. Antonio Carlos Martins Barros disse:

    Estou pesquisando com orgulho essa história do berço da liberdade dos escravos no Brasil, pois é emocionante e inspiradora. Poderia constar na grade curricular das escolas municipais. Neste momento que se discute a elaboração do Plano Municipal de Educação de Benevides.

  2. Marivana Borges Silva disse:

    Oi Antônio Carlos Martins Barros. Por favor, gostaria muito de saber mais sobre essa história dos Negros em Benevides. Se puder entrar em contato. Meu e-mail: marivana@ufpa.br.

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